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As referências de A Vastidão da Noite

Sem elas, ele pode ser visto como só mais um filme de sci-fi

As referências de A Vastidão da Noite

O filme de estreia do diretor Andrew Patterson é uma homenagem à ficção científica. As referências de A Vastidão da Noite vão de clássicos do sci-fi até eventos que marcaram o imaginário de uma época.

Os roteiristas Andrew Patterson e Craig W. Sanger uniram o melhor do gênero: atmosfera tensa, elementos conspiratórios, o mistério do diferente e a curiosidade insaciável pelo desconhecido.

A estética retrô do filme, que reconstrói a década de 1950, ainda traz algo de muito novo com a direção contemporânea do diretor.

Sua qualidade é realmente notável, levando em conta que é um longa de baixo orçamento que se aventura em uma área de produções pomposas do gênero, e não pende para o lado B. Na minha opinião, é um filme estiloso.

Ao meu ver, A Vastidão da Noite exige certa bagagem do público para ser valorizado devidamente. Sem captar as referências, ele pode ser visto apenas como mais um filme sobre o tema.

Então, dá uma olhada do que ele é feito.

*A partir daqui o texto pode conter spoiler!

Homenagem à Twilight Zone

As referências de A Vastidão da Noite
Filme é apresentado como um episódio de Twilight Zone

A Vastidão da Noite faz uma homenagem sincera às histórias de ficção científica que confrontaram o conservadorismo de suas épocas, com narrativas anárquicas que provocavam o imaginário do público, ao longo das décadas.

Especialmente o memorável Twilight Zone (Além da Imaginação), criado e apresentado por Rod Serling em 1959, ano em que o filme é ambientado. O seriado especulava conceitos do sci-fi e terror para enviar mensagens sociais.

O filme é apresentado como um episódio da série, mas agora em formato de longa-metragem, e não apenas em 25 minutos, tempo médio de cada capítulo. A ideia é fazer um filme dentro de outro filme.

Além de reproduzir o conceito da seriado, o longa joga outra isca para os fãs detectarem: a cidade fictícia Cauyga faz referência à Cayuga Productions, a produtora de Serling.

A Guerra dos Mundos de Orson Welles

As referências de A Vastidão da Noite
Orson Welles e sua adaptação rádio-teatro de A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells

A rádio é a principal condutora da história de A Vastidão da Noite. As peças da investigação que Fay e Everett coletam sobre o som misterioso são transmitidas ao vivo na rádio para informar os habitantes.

Tal conceito lembra a adaptação de A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells, por Orson Welles na rádio, em 1938. A transmissão teria causado pânico entre os ouvintes, embora alguns historiadores contestem a informação. De qualquer maneira, o evento é um marco no imaginário dos fãs de sci-fi.

No filme, a sigla da rádio onde Everett trabalha é WOTW, acrônimo de War of the Worlds, título em inglês de A Guerra dos Mundos.

A tensão que a trama desenvolve por meio de relatos de habitantes apavorados com os ‘eventos estranhos no céu’ cria o medo de que, a qualquer momento, naves alienígenas comecem a devastar a cidade. Tal como a história em questão.

Novo México: o palco de eventos bizarros no céu

As referências de A Vastidão da Noite
Caso Roswell aterrorizou o Novo México na década de 1940

Embora o nome da cidade fictícia faça referência a Twilight Zone, há um bom motivo para ela estar localizada no estado do Novo México. A região foi palco de um dos casos mais famosos da ufologia: o Caso Roswell, onde um suposto OVNI teria caído, em 1947.

A versão oficial das forças armadas americanas identificou o objeto como um balão do Projeto Mogul, mas o caso ficou mundialmente conhecido devido as teorias conspiratórias de ufólogos.

Desde então, muitos habitantes do estado têm suas próprias histórias envolvendo eventos misteriosos no céu para contar. O evento também serviu de inspiração para algumas produções de sci-fi.

Ex-militares abrem o jogo sobre OVNIS

Vídeos como o dessa imagem que circulam pela web há tempos, foram retirados do sigilo pelo Departamento de Defesa dos EUA e serão investigados

Não só a estética do filme, as referências ou o mistério sobre o sinal transmitido de uma nave alienígena agradam o público.

Os relatos do ouvinte Billy e da entrevistada Mabel surtem o mesmo efeito emocional que os eventos ligados a teoria da conspiração sobre projetos ultrassecretos do governo americano envolvendo vidas alienígenas e a ocultação de documentos sobre isso.

Billy, que participou de uma missão ultrassecreta com as forças armadas americanas, traz um relato semelhante a de supostos ex-militares que decidem abrir o jogo sobre experiências reais com UFOs ou relatórios ultrassecretos que o governo esconde.

Não é à toa o sucesso do livro da jornalista investigativa Leslie Kean entre os curiosos sobre o tema, “UFOS: OVNIs – Militares, Pilotos e o Governo Abrem o Jogo”, que traz diversos relatos de testemunhas sobre experiências do tipo.

O uso de personagens como Billy e Mabel são fundamentais para ligar o público com essa temática.

Ao trazer verdades ocultas à tona, despertam nosso fascínio por histórias conspiratórias que nos fazem imaginar que existe vida inteligente além de nós no universo – e não só isso: eles aparecem nos céus quando não estamos olhando, ou aguardam o momento oportuno para fazer contato, quando tivermos a capacidade de compreender sua existência.

Sem as referências, A Vastidão da Noite é só ‘mais um’

A Vastidão da Noite é sobre despertar emoções

O filme é feito de detalhes que se comunicam de maneira mais profunda com quem está imerso neste subgênero do sci-fi. Tal como o sinal vindo da nave se comunicou de maneira especial com os protagonistas.

Penso que a maior ambição de A Vastidão da Noite seja despertar sensações no público.

A minha experiência com com o longa foi multissensorial. Durante uma hora e meia, ele conseguiu despertar algumas emoções que estavam adormecidas dentro de mim. De uma época em que a lógica do mundo apenas fazia sentido através da minha imaginação sobre as coisas.

Como fã de sci-fi desde pequena, tive contato com diferentes narrativas e seus subgêneros. Livros, filmes e até vídeos fakes de naves especiais no YouTube me fascinavam, porque essas histórias me faziam olhar para o céu de outra maneira do que hoje (cética, direcionada pelos fatos).

Então eu olhava durante horas para as estrelas esperando algo inusitado acontecer, porque aquelas histórias me diziam que bastava estar atento ao céu para perceber que eu não estava sozinha.

É por isso que aprecio A Vastidão da Noite não só como uma homenagem ao gênero, mas também como uma abordagem inteligente que nos tira da rigidez da vida adulta, pelo menos por alguns minutos.

Assim, seu dever é cumprido: lembrar o poder que as histórias de ficção científica tiveram ao longo das décadas. Ainda têm, e devem permanecer assim.

Afinal, são elas que nos fazem olhar para cima, pela primeira vez, imaginando o que existe além de nós.


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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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