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Tatuador Orc e Mulher Morcego: conversamos sobre preconceito, aceitação e modificações corporais

Tatuador brasileiro faz modificações corporais para se tornar um orc da vida real

Tatuador Orc e Mulher Morcego: conversamos sobre preconceito, aceitação e modificações corporais

Orcs são criaturas humanoides que habitam o universo da fantasia, como já vimos nas obras de J.R.R. Tolkien e em jogos de RPG. É comum que essas criaturas apareçam agindo e lutando de forma brutal nas ficções. No entanto, quem conversa com o tatuador Orc, um artista brasileiro que fez modificações corporais para se parecer com a criatura fantástica, encontra muita gentileza e simpatia.

Natural de Iguatemi, Mato Grosso do Sul, o tatuador e modificador corporal brasileiro autodenominado como Orc Infernall entrou no mundo das modificações corporais há 7 anos, e desde então, passou por procedimentos como implantes de silicone no rosto e até um implante dentário para se tornar um “orc da vida real”.

A princípio, Orc se inspirou nos personagens fictícios das obras de J.R.R. Tolkien, mas posteriormente seu projeto de modificação corporal se alinhou ao policial Orc que aparece no filme “Bright”, com Will Smith.

Aos 41 anos de idade, Orc tem 80% do corpo tatuado, 8 implantes subdérmicos que formam uma série de pequenos chifres, a língua bifurcada e parte da orelha e do nariz amputados. Várias das modificações foram feitas pela sua esposa Mulher Morcego, que aprendeu a arte com o marido.

O último procedimento pelo qual Orc passou foi um implante dentário de duas enormes presas caninas inferiores, que custou em torno de 3 mil reais. Ele contou em entrevista ao Geekness que, durante o processo de adaptação, teve que reaprender a falar, a se alimentar e também precisou mudar alguns hábitos, mas não perdeu a mastigação.

A primeira coisa que me vem à mente quando vejo implantes subdérmicos é se o procedimento não é doloroso, e Orc garante que não, mas o pós-cirúrgico é um pouco complicado, pois há formações de edemas e inchaço na região operada.

As modificações corporais, também conhecidas pelo termo body modification, são utilizadas por várias culturas há séculos. A prática pode ser observada em tribos indígenas, entre membros de certas religiões na Índia e, também, em diversos lugares do Oriente. “As modificações corporais sempre foram marcas de identidade”, afirma Carmen Sílvia Rial, professora de antropologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

“Vejo a modificação corporal como um rito, algo mágico que está embutido no nosso DNA. Nossos antepassados nos deixaram como herança várias transformações corporais, adornos, adereços e mutilações.”, diz Orc.

Tive a oportunidade de entrevistar o tatuador Orc Infernall e sua esposa Mulher Morcego, onde conversamos sobre preconceito, tatuagens, modificação corporal e a visão feminina sobre esta arte. Confira abaixo.

A modificação corporal como forma de expressão artística

À primeira vista, o tatuador Orc é uma obra de body art para aqueles que entendem as transformações corporais como uma forma de expressão e experimentação corporal.

Embora no Brasil este tipo de arte seja cada vez mais procurado por jovens aptos a transformar o próprio corpo, nossa cultura ainda é permeada por preconceitos e prejulgamentos. Não são incomuns os relatos de modificadores corporais sobre preconceitos que sofrem por conta de seus visuais.

Com Orc não é diferente. Na mesma medida que ele recebe comentários positivos e causa fascínio em muita gente, ele também reconhece que as modificações corporais ainda chocam muito, causam espanto e estranheza tanto nas redes sociais como nas ruas.

“Somos alvos de duras críticas e algumas bem agressivas. Já sofremos ameaça de agressão”, ele conta.

O body modification pode ser interpretado como uma forma de desconstruir a perfeição do homem, que também está vinculada à conceitos divinos. Até por isso, Orc diz que é comum que as pessoas usem o nome de Deus para agredir ele e sua esposa.

Mulher Morcego, 25 anos, é manauense e tem mais de 45 tatuagens e 9 modificações corporais, entre elas, olhos tatuados de preto e ambas as orelhas remodeladas para se assemelhar ao mamífero voador, daí o nome adotado por ela.

Orc e Mulher Morcego são pais de Maria, de 6 anos, que inclusive é a admiradora nº 1 das modificações corporais dos pais. Eles contam que a menina até participa dos projetos de modificações, opinando sobre o visual deles.

“A Maria é peça chave no processo de nossa transformação, não faria jamais algo que a perturbasse, a incomodasse ou que fizesse ela sentir vergonha. Esse é o universo dela”, diz Orc.

“Já passamos por muitas cenas de preconceitos, mas tentamos sempre quebrar esse estereótipo e mostrar que, além de modificados, somos profissionais que acordam cedo como todos, somos pais exemplares e cuidamos um do outro”, diz Mulher Morcego.

Nas contas do Instagram do Orc e da Mulher Morcego, vemos incontáveis fotografias do casal, de ambos abraçados com sua filha Maria e seus animais de estimação. Isso, no entanto, não impede que a intolerância e comentários maldosos surjam, a todo momento, em suas redes sociais.

Recentemente, o tatuador publicou um vídeo no Instagram dizendo que estava impedido de adicionar legendas às fotos, de fazer comentários nas publicações e revelou que já teve problemas semelhantes no Facebook.

“Quando começamos a fazer as lives, as pessoas começaram a denunciar em tempo real. Recebemos tantas denúncias que fomos bloqueados pelo simples fato da nossa imagem causar repúdio nas pessoas. Fiquei 30 dias bloqueado no Facebook por duas vezes e o mesmo aconteceu no Instagram. Eles não analisam o conteúdo das denúncias e apenas bloqueiam” conta Orc.

Atualmente, podemos notar que as tatuagens têm passado por um processo gradativo de aceitação social. O que antes era inclusive um fator impeditivo para o mercado de trabalho e algumas profissões, tem se flexibilizado a passos lentos.

“O Brasil ainda está muito longe dessa forma de liberdade de expressão. Estamos seguros que, a Europa e alguns outros continentes, estão à frente no quesito aceitação. Na Alemanha, por exemplo, as pessoas quase não se olham, não se julgam; cada um segue sua vida, se vestindo como quer, como uma forma de expressão. No Brasil, pouca coisa mudou. Apenas os trabalhos [tatuagens] comerciais são bem vistos pela sociedade. As pessoas com maior poder aquisitivo são sempre bem vistas quando se tatuam; atores globais e jogadores de futebol ganharam lugar de destaque nos últimos anos. Ou seja, nós, ‘reles mortais’, continuamos marginalizados perante a sociedade”, ele me responde quando pergunto sua opinião, enquanto tatuador, sobre a aceitação social em torno das tatuagens.

Os simples piercings ainda são motivo de estranhamento, quando falamos de modificações extremas então, caminhamos em um terreno delicado onde valores religiosos e conservadores são como minas prestes a explodir.

Pergunto ao Orc como é possível começar a desconstruir o preconceito em torno das modificações corporais e ele me responde que, na sua opinião, o processo de desconstrução é longo e tortuoso.

“Depende única e exclusivamente de cada um. Não quero transformar o mundo, apenas quero me modificar. Acho praticamente impossível fazer com que as pessoas que já possuem sua opinião e seus preconceitos enxerguem [as modificações] de uma outra forma. Nascemos e somos criados com prejulgamentos e somos ensinados a sermos “anti” a tudo o que nos foi pregado quando crianças. É um ciclo o anormal, que agride e incomoda as pessoas. Quem sabe daqui 10 gerações essa desconstrução não acontecerá”, ele diz.

Em relação aos preconceitos que ele sofre, Orc diz que as pessoas podem enxerga-lo de uma outra forma se o conhecerem e reconhecerem que ele é um bom pai, uma pessoa do bem, que não oferece danos nem risco à sociedade.

Repercussão internacional

Desde que Orc implantou o par de presas inferiores, sua imagem ganhou repercussão internacional. Matérias sobre ele já foram publicadas em sites pelo mundo inteiro, como Indonésia, França e Croácia.

“Jamais enxergo como algo positivo o fato de virarmos atração pelo mundo todo”, ele me responde quando pergunto se há alguma preocupação em torno da espetacularização de sua imagem.

Com a popularidade, Orc tem recebido comentários positivos de admiradores da modificação corporal, mas também comentários maldosos e intolerantes.

Ele conta que “as críticas vêm tanto de forma negativa quanto de forma positiva, mas recebemos milhares de convites para programas de televisão, propaganda de produtos e até participação de um filme”.

“Estamos preparados para tudo o que vier daqui para frente”, o tatuador Orc afirma.

Modificações corporais femininas vs Culto à perfeição

Mulher Morcego é uma simpatia, assim como o marido. Suas palavras são envoltas em muita doçura e ela me conta que, quando fez a primeira tatuagem, se apaixonou por essa arte e desde então não parou mais.

Modificadora corporal há um ano, ela aprendeu a arte com o marido. O primeiro processo de modificação corporal pelo qual ela passou foi há dois anos, com a pigmentação dos olhos, o “eyeball tatoo”, que inclusive foi seu marido quem fez.

“Eu sempre sofri muito preconceito na escola por ter orelhas de abano e, pra fugir um pouco do usual, decidi ousar. Depois de muitas pesquisas e estudos cheguei a essa conclusão de fazê-las de morcego, e meu esposo abraçou a ideia. A partir daí, me autointitulei como Mulher Morcego”, ela conta.

Pergunto à Mulher Morcego como ela enxerga o processo de modificações corporais enquanto mulher, um gênero tão oprimido por padrões de beleza irreais, e se ela tem alguma intenção em romper com os modelos de perfeição feminina cobrada socialmente ao longo de tantos séculos.

“Nós somos muito limitadas a esse padrão e muitas vezes sofremos por não conseguirmos alcançar os ‘corpos perfeitos’, mas o que é perfeição? Perfeição é estar feliz consigo mesmo, se amar e se sentir amada. A minha perfeição é essa: cada mulher é perfeita à sua maneira”, afirma.

“O essencial é invisível aos olhos”

Minha conversa com o casal foi descontraída e agradável. Mulher Morcego e o tatuador Orc Infernall foram muito receptivos. No momento que conversamos, eles estavam tatuando em Serra Pelada, no meio da floresta amazônica. Orc reside no Pará há 7 anos e Mulher Morcego, há dois anos.

“Desbravando e desmistificando o conceito de tattoo por regiões mais remotas, somos muito bem recebidos por aqui e trabalhamos em um ritmo frenético, como dos grandes centros. Agenda lotada e muitas pessoas tatuadas. O lugar é mágico, incrível. Estamos apaixonados por Serra Pelada, lugar de paisagens e lugares paradisíacos”, conta Mulher Morcego.

Qual é a sua opinião sobre o conceito body modification? Você acha que é possível darmos espaço a todas pessoas para serem o que são e respeitá-las, ainda que não concordemos plenamente uns com os outros? Será que a intolerância e o estranhamento não são sintomas da nossa natureza narcisista, na qual apenas aceitamos bem aquilo com o que nos identificamos?

Eu não sei você, mas após a minha entrevista com o tatuador Orc Infernall e a Mulher Morcego, eu fico com o aprendizado reforçado do que o menino do planetinha já tinha me ensinado muito antes: “O essencial é invisível aos olhos”.


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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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