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Porque somos fascinados por filmes de terror

Química, narrativas sociais e um hábito ancestral de contar histórias

Há quem não suporte assistir nem apenas a alguns minutos. Ou quem assista tampando os olhos. E tem aqueles que são apaixonados e degustam o que o gênero tem oferecido de melhor há décadas. A resposta porque somos fascinados por filmes de terror está em como eles agem em nosso cérebro e também em um hábito ancestral de contar histórias.

Terror + Medo = Endorfina

Porque somos fascinados por filmes de terror
Hereditário (Hereditary, 2018)

Os pesquisadores da Universidade de Pittsburgh concluíram que as pessoas melhoram seu humor e se sentem mais relaxadas após uma experiência assustadora voluntária, como assistir a um filme de terror.

Quando vemos cenas onde personagens correm perigo, assombrações aterrorizam famílias e degenerados fazem banho de sangue nos controversos gores há uma região específica do cérebro que é ativada: a amígdala, responsável pelo processamento emocional e pelo mecanismo primitivo de resposta de fuga ou luta. Quando acionada, a adrenalina e o cortisol aumentam os batimentos cardíacos, elevam o fluxo sanguíneo e alteram a respiração.

Associar esse fluxo de substâncias percorrendo pelo corpo como algo positivo faz com que as pessoas queiram sempre mais da mesma experiência para sentir tudo novamente.

“É muito semelhante, pelo menos em um nível fisiológico e neurológico, à experiência de um atleta de corrida profissional. Durante o momento de horror, você está realmente forçando o seu sistema nervoso autônomo a ficar ligado”, explica Margee Ker, socióloga e autora do livro “Scream: Chilling Adventures in the Science of Fear”.

Quando o filme acaba, o alívio desencadeia uma grande quantidade de endorfina liberada no cérebro, o que causa o bem-estar e o gosto pelo horror.

Tudo depende, também, da companhia: quando assistimos aos filmes do gênero com familiares e amigos, o cérebro associa a experiência à diversão, mesmo que as cenas apresentem situações assustadoras e tenebrosas.

Se você continuar tendo um dia agradável, é provável que o cérebro assimile tudo como algo positivo e você queira fazer isso mais vezes.

Mas se, após o filme, algo ruim acontecer, como um acidente de carro a caminho de casa, é provável que você associe a experiências ruins e dificilmente vai querer assistir a algo do gênero de novo, ou sentirá o mesmo prazer.

Isso porque as associações negativas têm mais peso e são mais difíceis de sair da mente.

O terror como narrativa social

Porque somos fascinados por filmes de terror
Nós (Us, 2019)

Os filmes de terror mexem com nossos medos primários, mas são muito mais do que apenas sustos e aversões. Se observarmos as narrativas contextualizadas com a época em que foram lançadas, veremos como elas refletem as ansiedades da sociedade ao longo das décadas, e se comunicam com aflições contemporâneas.

Durante a década de 50, por exemplo, enquanto o mundo vivia sob a tensão constante da explosão de uma guerra nuclear, filmes de criaturas gigantes que destruíam cidades inteiras e alienígenas hostis que desejavam destruir a humanidade foram lançados e conquistaram seu espaço singular na história do cinema.

A situação sociopolítica global atual e o avanço tecnológico deram origem a filmes que exploram tecidos sociais modernos, apresentando cenários de puro mal-estar contemporâneo.

O diretor Jordan Peele, por exemplo, se consagrou como grande mensageiro da desigualdade social e polarização racial americana com a habilidade de retratar os temas com doses ácidas de horror.

Um hábito ancestral de contar histórias

Ao Cair da Noite (It Comes At Night, 2017)

Contar histórias é um hábito tão antigo quanto a própria civilização. Inclusive, elas tiveram papel importante para nossa evolução. O cinema é uma das conquistas mais grandiosas da capacidade humana de compartilhar histórias.

E não subestime o gênero, pois o terror também é uma evolução artística importante. Ou como pontua muito bem Karina Wilson no Horror Film History: “Os filmes de terror são a versão atual dos poemas e baladas épicas contadas em volta do fogo de nossos ancestrais”.

A literatura ajudou a estabelecer o gênero com o “romance gótico” – histórias sombrias com elementos sobrenaturais que se desenvolvem em ambientações góticas, como castelos com corredores sinuosos e alçapões. E, claro, o estilo deu as bases para futuras adaptações cinematográficas como Frankenstein, Drácula e O Fantasma da Ópera.

“Desde que as histórias existem, existiram histórias sobre o Outro, as irrealidades que podemos categorizar hoje como ficção especulativa. Os mitos da criação primitiva em todas as culturas são povoados por demônios e trevas, e a mitologia abraâmica e egípcia ressoa com histórias de um mundo além do físico, um reino dos espíritos, a ser reverenciado e temido. A mitologia clássica está repleta de monstros – Cérbero, Minotauro, Medusa, Hidra, Sirenes, Ciclope, Cila e Caríbdis, para citar apenas alguns – e os heróis devem navegar em segurança pela terra dos mortos em ocasiões frequentes. O culto aos antepassados e a veneração dos mortos começam com a dinastia Zhou na China, 1500 anos a.C.”, explica Wilson.

O terror e seus subgêneros exploram desde a violência fantasiosa, os mal-estares contemporâneos e nos dão arrepios ao retratarem personagens reais humanos sádicos e traços obscuros da condição humana. Tudo é mais uma maneira de marcar nossa história na Terra. Isso pode fazer você gostar mais ainda dos filmes do gênero ou vê-los com novos olhos.


Leia mais sobre filmes de terror!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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