Nerdizmo

Na Natureza Selvagem é superestimado

Um filme celebrado, adorado, ovacionado.

Para todos os lados que eu olho, Na Natureza Selvagem (Into the Wild, 2007) é celebrado, adorado, ovacionado. É comum lermos e ouvirmos por aí elogios dos mais diversos… “melhor filme”, “belíssimo”, “ótima história de vida”, e comentários semelhantes.

Isso me incomoda um pouco. Principalmente levando em conta que trata-se de uma história superestimada ao extremo, onde muitas pessoas veem méritos e heroísmo onde não há nada próximo disso.

Na Natureza Selvagem é superestimado

A jornada da inconsequência na natureza selvagem

Tudo começa quando Christopher Johnson McCandless, um jovem de classe média dos EUA que acaba de se formar na Universidade, resolve “questionar” o padrão de vida que tem e tomar uma decisão extrema de abandonar tudo.

Ele doa suas economias (US$ 24 mil) para uma entidade carente, destrói seus documentos e até faz uma fogueira com o dinheiro que tinha na carteira para embarcar em sua aventura sem destino.

O jovem vira um andarilho e cruza os Estados Unidos até o Alasca, em uma espécie de busca pela sua própria verdade, identidade, o renascimento de um novo ser. E por onde passa, ganha respeito pelas pessoas (provavelmente por ser jovem, bonito, já que normalmente andarilhos não tem esse respeito ou qualquer atenção, no geral), até descobrir que as cidades “fazem mal” e decidir se isolar totalmente no mato.

A busca por algo que não existe

A questão disso tudo é que Chris busca algo inexistente. Busca “conforto existencial” em meio a natureza e a solidão. Sem um plano, sem um destino certo, sem qualquer projeção de futuro e sobrevivência. A inconsequência domina totalmente suas decisões e o seu rumo.

Ele basicamente se refere a uma espécie de renascimento ao conseguir se desapegar de tudo e todos, e viver na natureza. E aí, suas decisões se tornam um pouco mais radicais.

Para um jovem que era tão bem instruído, formado com méritos na Universidade de Emory, em Atlanta, este é um triste e enfadonho fim. Pois ele poderia ter planejado melhor a sua jornada do descobrimento de uma forma menos fatalista e radical, que beira a burrice.

Vivendo em isolamento e sem qualquer condição de sobrevivência

O garoto resolveu, no final das contas e contradizendo a sua própria e famosa frase: “A felicidade real só pode ser atingida quando compartilhada”, se isolar totalmente na floresta. Sem dinheiro, sem suprimentos, e cada vez mais com ideias radicais.

Ninguém sabe ao certo o que aconteceu por lá, mas o filme retrata toda a jornada com romantismo. O jovem passa a viver das coisas que a natureza, inclusive alimentos. Aparentemente as coisas andavam bem até o momento em que resolveu deixar de caçar animais para comer carne.

Isso o tornou muito mais frágil fisicamente e psicologicamente.

Como sabemos, não é possível viver em plena saúde sem as vitaminas e nutrientes necessários para o corpo funcionar. E na floresta é praticamente impossível suprir todos esses nutrientes devido à falta de variedade de vegetais.

Deixou uma carta na porta do ônibus velho e enferrujado em meio a floresta, onde morava, a qual dizia: “S.O.S. Preciso de ajuda. Estou aleijado, quase morto e fraco demais para sair daqui. Estou totalmente só, não estou brincando. Pelo amor de Deus, por favor, tentem me salvar. Estou lá fora apanhando frutas nas proximidades e devo voltar esta noite. Obrigado, Chris McCandless.”

Morreu dentro do ônibus, por inanição, estado em que a pessoa se encontra extremamente enfraquecida por falta de alimentos. Ou seja, morreu de fome. E o seu corpo foi encontrado dois anos depois, decomposto, por exploradores.

No longa, o motivo da morte foi apresentado de uma forma um pouco mais romântica: a teoria de que ele teria colhido e ingerido frutos que eram venenosos, ou com fungos.

O apelo do filme estão nas mensagens genéricas contra a sociedade, contra o consumismo e o capitalismo, a busca pela verdade suprema. Tudo é apresentado de uma forma bonita e transforma o personagem em um mártir dos mochileiros. A velha história do “largue tudo e vá viajar”.

Apesar de dizerem que Chris se inspirada em ideais de escritores como Henry David Thoreau, Leon Tolstói e Jack London, toda essa auto-ajuda nas entrelinhas da história de Chris torna o personagem um ser pífio, sem profundidade e sem propósito. Um andarilho sem rumo com ideias inconsistentes que o levou até a morte.

O mártir dos mochileiros

Onde há heroísmo nisso? Onde há sabedoria, inteligência? Qual a mensagem real passada ali? Não há qualquer indício de filosofia existencial e consciente. Há apenas rebeldia e a incapacidade de viver de forma responsável. Uma representação de puer aternus, o arquétipo de pessoas que não crescem nunca.

Esse tipo de pessoa não se prende à realidade (costumam ser ingênuas e idealistas), têm uma crônica falta de comprometimento (não estabelecem compromissos com situações do mundo e da vida) e apresentam dificuldades com o aspecto criativo da personalidade — não encontram saída para as dificuldades da vida, por isso fogem delas ou buscam sempre alguém que lhes sirva de “mãe”. Sendo a mãe, no caso específico de Chris, a natureza.

Vale ressaltar que esta crítica, no entanto, não condiz com a parte técnica do filme. Seann Penn, diretor e produtor do longa, fez um ótimo trabalho ao transformar o livro homônimo em filme. Tudo é bem montado, escrito e apresentado.

Inclusive, o ponto que realmente se destaca e que vale a pena no filme é a trilha sonora, composta por Eddie Vedder, o cabeça da banda Pearl Jam. Um trabalho primoroso e maravilhoso em composições totalmente condizentes com o tema, cheios de belos arranjos.

As ideias apresentadas aqui condizem com a história em si, e o fato de transformarem em herói um jovem totalmente inconsequente e juvenil.

Temos muitas histórias, como livros e filmes que discorrem sobre as jornadas do eu e como as pessoas se relacionam com a sociedade. Seja na busca de uma verdade, identidade, respostas ou simplesmente pelo fogo interno de completar um desafio.

Como excelentes exemplos, e anos-luz melhores do que Na Natureza Selvagem, temos Livre – A Jornada de Uma Mulher Em Busca do Recomeço de Cheryl Strayed; Tracks,de Robyn Davidson, sobre sua jornada a camelo em 1977 no deserto australiano; e Capitão Fantástico (leia aqui nossa crítica), sobre um homem que cria sua família na floresta, longe da civilização.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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