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Como a série The Great distorce totalmente a história real

Do ponto de vista histórico, pouquíssimos eventos dão para aproveitar

Como a série The Great distorce totalmente a história real

A série The Great, de Catarina da Rússia, é um excelente passa tempo. Tem ótimos atores, muita comédia escrachada, rende boas risadas e traz uma mistura de leveza com bizarrices e loucuras – assim como eles nos fazem pensar que a Rùssia é[ra].

Acontece que, do ponto de vista histórico, pouquíssimos eventos dão para aproveitar. E isso faz com que a gente tenha uma visão completamente diferente do que realmente aconteceu. E assim nós formamos uma ideia redondamente errada de quem e como foram essas pessoas durante a época em que a série se passa.

Tá certo que eles avisam que “eventualmente” é baseada na verdade, a cada início de capítulo. Mas, de fato, quase nada ali parece se basear no que de fato aconteceu. E, principalmente, os personagens apresentam traços de personalidade extremamente diferentes do que realmente eram. Abaixo, a gente discorre alguns pontos a serem considerados.

Obviamente, a partir daqui, o texto contém spoilers.

Confira!

Série The Great, de Catarina da Rússia, não é historicamente correta

#1 – Pedro III não foi um babaca como a série pinta. Muito pelo contrário

Como a série The Great distorce totalmente a história real

No seriado, vemos Pedro como alguém extremamente raso, burro, chucro e que apenas quer saber de diversão, sangue, mulheres. Não dá a mínima para assunto algum do Estado, ou seu povo ou qualquer pessoa. É pintado como alguém horroroso e terrível no pior sentido da palavra.

Na realidade, ele não foi assim. Pelo contrário. Há registros de que Pedro era um homem culto, de mente aberta, e progressista para a época.

O historiador russo A.S. Mylnikov, diz:

“Existiam muitas qualidades contraditórias nele: observação aguda, zelo e sagacidade afiada em seus argumentos e ações, a imprudência e a falta de clareza na conversa, sinceridade, bondade, sarcasmo, um temperamento quente e irado.”

Basicamente, quem fala mal e desdenha de Pedro III foram os seus usurpadores, e a própria Catarina II – que roubou o seu trono em um ato de traição junto de um de seus amantes.

Elena Palmer, jornalista e historiadora quem escreveu a biografia de Pedro III chamada de “Pedro III – O Príncipe de Holstein”, revela:

“Pedro III não era bêbado nem idiota. Seus planos para a dramática transformação da sociedade revelam a visão de um jovem imperador que estava muito à frente de seus contemporâneos. Pedro assumiu uma posição de “absolutismo iluminado “, que era muito novo e progressivo para isso. Com suas abordagens democráticas, Peter estava em posição de liderar a Rússia fora do impasse do feudalismo e foi capaz de criar uma nova ordem social sem derramamento de sangue. Ele provou sua fortaleza com reformas ambiciosas e deu ao país esperança de economia e avanços sociais. Não havia razões políticas para a derrubada de Pedro, pois o povo amava seu imperador e seus apoiadores o idolatravam. Em vez disso, o destino de Pedro III foi uma tragédia familiar como um drama de Shakespeare. O amante da rainha matou seu marido enquanto ela silenciosamente o apoiou nesse ato traiçoeiro”.

Vale ressaltar que Palmer passou meses, graças aos seus conhecimentos das antigas linguagens russas e alemãs, estudando documentos históricos sobre Pedro III para chegar a esta conclusão.

#2 – O reinado de Pedro III na verdade foi bom, não ruim

Durante o seu curto reinado de apenas seis meses, Pedro III representou várias ideias revolucionárias para a época, e de fato realizou reformas internas que foram boas para a Rússia, não um show de horrores como a série dá a entender.

As ideias dele eram democráticas. Um exemplo disso é que ele pregou a liberdade religiosa, algo que não existia em lugar algum, nem mesmo na Europa Ocidental (vista como progressista na época).

Ele também combateu a corrupção no governo, instaurou ações públicas e aboliu a Polícia Secreta do Estado – também chamada de Inquisição Russa, um órgão que usada métodos de brutalidade e tortura, criado para reprimir e expor traidores do país.

Pedro também estabeleceu o ensino obrigatório para a aristocracia. E em algumas cidades, foram criadas escolas técnicas para crianças das classes média e baixa.

Criou o primeiro banco estatal da Rússia, rejeitou o monopólio da nobreza sobre o comércio e incentivou a produção nacional, aumentando a exportação de grãos e proibindo a importação de materiais que poderiam ser encontrados na Rússia.

Certa vez, Pedro III emitiu um tratado para que dispensasse a nobreza de serviços militares e do Estado. Com isso, os nobres ofereceram a ele a criação de uma estátua de ouro maciço em sua homangem. Pedro III recusou a oferta, e disse que seria muito mais benéfico e útil utilizar este ouro em favor da nação.

Outra coisa que ele fez foi que, pela primeira vez, um fazendeiro poderia ser condenado ao matar um camponês, algo que até então era impossível.

#3 – Todos os personagens foram inventados, com exceção de Catarina e Pedro

Como a série The Great distorce totalmente a história real

Todos os personagens secundários do seriado foram inventados. Eles representam diversos tipos de pessoas e personalidades da época. Entre nobres, servos, pessoas importantes da Corte ou membros da família de Pedro.

Sabe-se que Catarina II teve apoio do exército e de outros setores da Corte para roubar o trono de Pedro. Por isso, para o seriado, era preciso criar personagens para representar cada um desses setores. Entre eles estão um Clérigo, que representa a Igreja; um Estudioso que representa os assuntos internos; um General que representa os militares; e uma serva que representa os criados.

Pessoas, que segundo o criador da série, Tony McNamara, acreditavam que a Rússia não poderiam mudar, mas depois passam a acreditar que sim, graças ao pensamento de uma jovem e determinada Imperatriz que surge do nada na Corte e dissemina suas ideias com paixão.

#4 – Ambos tinham muitos amantes, não apenas um ou outro

Como a série The Great distorce totalmente a história real

Na série, tanto Pedro quanto Catarina têm praticamente um amante fixo. Porém, a história diz que ambos tiveram diversos amantes durante toda a vida. Não apenas um ou outro.

O programa de TV, no entanto, decidiu focar apenas em um específico para cada um, possivelmente para desenvolver os personagens melhor ou criar uma aproximação maior para com os telespectadores.

#5 – Paulo provavelmente era filho de Pedro III, não de um amante

Como a série The Great distorce totalmente a história real

O seriado indica que Paulo, o bebê que está na barriga de Catarina II, seria filho de um de seus amantes. Isso, no entanto, provavelmente é mentira. Pois a história revela que Paulo era muito parecido fisicamente com Pedro, dando a entender que ele era de fato seu pai.

Historiadores relatam que provavelmente Catarina II dizia não ser filho de Pedro III para tentar tirar os poderes de sucessão de seu filho, a fim de fazê-lo acreditar que não era de fato filho de Pedro. Não deu certo. Pois Paulo não gostava de sua mãe, e quando tomou o trono mandou transferir a ossada de seu pai fosse exumada e sepultada com todas as honras na Catedral de Pedro e Paulo, onde outros czares foram enterrados.

#6 – Catarina II não era tão maravilhosa assim

Conhecida como Catarina, a Grande, ela foi responsável por um grande avanço da Rússia – que colocou o país entre as potências europeias durante seu reinado, entre 1762 e 1796. Quando Imperatriz, a Rússia estava na “Era de Ouro”.

Porém, ela não representava tantas maravilhas como a série pinta. Primeiramente, por ela ter conspirado para depor e roubar o trono de seu marido, Pedro III. Segundo, porque ela atendia os interesses da nobreza, e pouco ligava para a classe mais pobre – camponeses perderam muitos direitos durante os seus reinados. E ela aumentou consideravelmente o poder dos senhores de terra, distribuindo riqueza para os mais ricos e deixando os pobres à beira da miséria e do colapso.

Documentos históricos revelam que Catarina II compactuou com um de seus amantes para retirar o trono e posteriormente assassinar Pedro III – que até então era admirado por seu povo como Imperador, diferente do que vemos no seriado.

Isso aconteceu especialmente porque Pedro III passou a não agradar muito a nobreza em algumas ações dele – que eram consideradas democráticas ou sociais.

A conclusão sobre a série The Great

Como a série The Great distorce totalmente a história real

Pelo que vemos no seriado, dá nojo e muita raiva de Pedro, que é mostrado como um ser deplorável e que não liga para absolutamente nada. Apenas quer reinar em uma grande orgia cheia de assassinatos, bizarrices e caprichos em seu favor.

É importante que a gente saiba e leia mais pontos de vista, para sabermos que não foi bem assim. Quem assiste a série e não procura saber mais sobre, por exemplo, fica com uma imagem totalmente distorcida da história na cabeça. E isso é, na nossa opinião, extremamente prejudicial culturalmente para qualquer ser pensante.

Tentamos aqui, portanto, dar um contraponto nesta história que, apesar de divertida e engraçada, é quase nada verdadeira.

Referências Bibliográficas:

Peter III. Der Prinz von Holstein

Raleigh, Donald J. and Iskenderov, A.A (1996). “The Emperors and Empresses of Russia: Rediscovering the Romanovs”, p. 127. M.E. Sharpe, New York.

Raleigh, Donald J. and Iskenderov, A.A (1996). “The Emperors and Empresses of Russia: Rediscovering the Romanovs”, p. 118. M.E. Sharpe, New York.

Fyodor Volkov, O “diretor-chefe” da imperatriz Catarina II esteve envolvido no assassinato de seu marido Pedro III?

How The Great Very, Very Loosely Adapts Russian History

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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